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O Procurement estratégico com Cláudia Branco

Written by Redação SERES | 2026 Maio 18

Cláudia Branco é Procurement Director no Grupo Manuel Champalimaud, um dos grupos empresariais portugueses com presença relevante em setores como energia e combustíveis, indústria, logística alimentar, turismo e exploração cinegética e silvícola.

Com uma carreira consolidada na área das Compras e do Procurement estratégico, destaca-se pela sua visão integrada e ousada da função, onde eficiência operacional, criação de valor e gestão de risco, coexistem de forma equilibrada.

Nesta entrevista, Cláudia partilha com a SERES a sua experiência na transformação da função de compras dentro das organizações, destacando a digitalização de processos, a otimização da relação com fornecedores e a implementação de práticas de governance mais eficientes e sólidas.

P: O Procurement tem vindo a evoluir de uma função operacional para um papel estratégico. Na sua visão, o que mais contribuiu para esta mudança? 

R: As funções associadas à gestão de compras, têm vindo a evoluir ao longo dos últimos 20 anos de forma lenta no tecido empresarial português. Começámos na mesa do senhor das compras, na sua função meramente administrativa que a pedido, ligava ao fornecedor de sempre, porque era mais fácil e já sabia com o que contava. Estamos hoje num setor definido nos âmbitos de Procurement e Supply Chain que com competências técnicas e âmbitos de atuação diferentes agregam valor entre si, nunca podendo dissociar-se.

O Procurement com base na necessidade, pensa e implementa a estratégia de aquisição ajustada à área de negócio e assegura a proveitosa negociação do custo de aquisição. O Supply Chain é dono das atividades no terreno e assegura a eficiente movimentação dos bens. Esta mudança vem claro da evolução da conjuntura comercial em Portugal, mas maioritariamente porque a gestão empresarial se tornou mais consciente na necessidade de planear melhor e antecipar riscos. Gradualmente vem-se tomando consciência de que o Procurement é a porta de entrada do custo e é aí que a estratégia deve começar.  

P: Como se posicionam hoje os Departamentos de Procurement dentro das estruturas organizacionais? 

R: Nas estruturas organizacionais modernas, já existe um mindset sólido no sentido de perceber que a atividade comercial das empresas beneficia em larga medida de uma atividade de procurement e compras eficiente, uma vez que lhe confere uma posição mais competitiva, quer junto dos seus clientes, quer em comparação com os seus concorrentes. Se comprar melhor, venderá melhor!

Se comprar melhor, menores impactos terão as ineficiências operacionais que se registem ao longo do processo. Sendo que os custos de aquisição de bens e serviços impactam diretamente na margem final do negócio, as empresas foram percebendo que o Procurement, leia-se a porta de entrada do custo, tem de estar perfeitamente bem defendida e pensada por profissionais exclusivamente dedicados a isso.

O Procurement de hoje em dia já não negoceia ao melhor custo apenas, mas antecipa perdas, mitiga riscos contratuais, apoia na manutenção da liquidez financeira, revisita acordos contratuais desafiando a competitividade dos mesmos e mantém ativa a rede de parcerias estratégicas essenciais para o desenvolvimento do mercado de aquisição. Desta forma, o Procurement ganhou representatividade nas estruturas organizacionais e é hoje uma peça impulsionadora de transformações essenciais à evolução dos negócios, na medida em que se entrega as funções certas aos profissionais certos.

Considero também que a evolução do posicionamento do Procurement é impactada pela culturalidade portuguesa. Somos um povo altamente adaptável, capaz e desenvolto e por isso cultiva-se a arrogância de que todos percebemos de tudo. Claro que todos sabem pedir 3 propostas e ver qual é mais barata, mas existe um mundo entre pedir descontos e negociar uma parceria estratégica e integrada. Nem todos os profissionais que percebem de custos, percebem de negociação. Nem todos os profissionais com conhecimento técnico da área de negócio, percebem de estratégia. 

O Procurement atual antecipa perdas, mitiga riscos, apoia na manutenção da liquidez financeira e mantém parcerias estratégicas ativas.

 

P: Como é que a relação com fornecedores tem evoluído? Acredita que há uma maior tendência para parcerias estratégicas em vez de relações puramente transacionais? 

R: Também nas relações com fornecedores houve uma grande evolução nos últimos anos. O profissional de Procurement dos dias de hoje, deixou de ser a pessoa maldisposta que dá murros na mesa e passou a ser um negociador pragmático, objetivo, perspicaz e educado que promove parcerias estratégicas através do benefício e da cooperação. Obviamente que qualquer profissional de Procurement busca o saving de negociação e irá conduzir o processo nesse sentido, no entanto, uma boa negociação pode coexistir com conceitos como educação e cordialidade.

Infelizmente a nossa sociedade ainda confunde um trato relacional fácil com fragilidade e alguns ainda acham que quem grita mais é quem obtém melhores vantagens. No entanto, nós negociadores mais maduros e experientes, estudantes e curiosos eternos do comportamento humano e do mercado, sabemos que a grande maioria das vezes a postura mais rígida, é uma denuncia de insegurança.
 
O que realmente faz a diferença é saber navegar entre a posição de força e assertividade e a posição de cooperação, entre a argumentação preparada e a rapidez de raciocínio, entre o objetivo prévio e a capacidade de encontrar cinzentos que ninguém viu naquele momento, entre o pragmatismo dos factos e o "bluff" de negociação.
 
Em situações de crise ou em negócios decisivos, nunca serão as relações meramente transacionais e distantes que fazem a diferença, mas sim as parcerias estratégicas e relações de confiança que foram construídas com base na cooperação.
 

P: Quais são hoje os maiores desafios que uma Direção de Procurement enfrenta num grupo com a diversidade de negócios como o Grupo Manuel Champalimaud? 

R: O maior desafio tem sido a evolução no mindset, dado que quando cheguei ao Grupo a área de Compras integrada nos Serviços Partilhados tinha um cariz maioritariamente administrativo e sem competitividade comercial. Outro desafio grande tem sido a criação de uma estrutura organizacional de dados de compras que permita uma análise transversal, clara e objetiva. Equilibrar o denominador comum em standart de Procurement e Compras, sem perder a devida especificidade de cada negócio tão distinto do outro, é uma tarefa hercúlea que temos vindo a desenvolver nos últimos 3 anos, sendo que o próprio Grupo se tem alterado profundamente também no que respeita aos seus modelos de governance.

Implementamos no ano passado e pela primeira vez no Grupo, uma Política de Procurement e Compras que não só vem criar processos de compras mais resilientes em todas as áreas de negócio, como vem reorganizar as categorias de aquisição por âmbito de responsabilidade, criar meios de monitorização de performance e agregar centralmente poder negocial, que depois é refletido em saving nos PNL das áreas de negócio. Transitámos o âmbito de responsabilidade centralizado de 2 categorias de aquisição para 17, criamos uma equipa dinâmica e capaz, passámos a gerir as categorias numa ótica de custo e não apenas de necessidade e ganhamos representatividade dentro da estrutura. Ter uma área de Procurement forte nos Serviços Partilhados, permite às empresas focarem os seus recursos no negócio puro e duro, o que é um benefício para todos. Existem ainda muitos desafios, resistências e processos para terminar e outros para iniciar, há coisas que poderíamos ter feito melhor e que têm sido ensinamentos, mas considero que o desafio vem sendo superado no dia a dia, porque o caminho se faz caminhando. 

Os últimos anos da minha carreira têm sido sempre em ambientes de mudança, onde liderei transformações que estavam a acontecer no momento ou iniciaram com a minha contratação, pelo que este contexto não me é desconhecido. Tenho noção das dificuldades habituais e naturais, das abordagens e posturas típicas das pessoas. No entanto, continuo a acreditar, que este é um Grupo com um potencial enorme e espero poder continuar a contribuir nesse sentido.

 

Implementamos uma Política de Procurement e Compras que cria processos mais resilientes e reorganiza as categorias de aquisição por âmbito de responsabilidade.

 

P: De que forma a digitalização tem impactado a função de compras no Grupo Manuel Champalimaud? 

R: Sendo um Grupo que cresceu por aquisição, sem uma estratégia central que tivesse priorizado a uniformização dos dados, em 2023 trabalhávamos com 4 Erp's diferentes. Este ano a uniformização em SAP/Hana ficará concluída, bem como a estrutura de dados mestre, o que permitirá uma evolução grande naquilo que é a análise dos dados.

Melhores dados permitem-nos melhores análises e por consequência melhores negociações, o que vem claro reduzir o custo.

Acho importante também desmistificar este tema, no sentido em que não somos só bons profissionais de procurement quando negociamos melhor. Somos também bons profissionais de procurement quando conseguimos aplicar os nossos skills de negociação e visão estratégica aos processos internos e assim fazer evoluir as organizações empresariais para standards de trabalho que antes não existiam.

Metas de saving vão sempre existir todos os anos, mas quando deixamos a organização e partimos para outros desafios profissionais, o nosso legado, é efetivamente o da transformação.

P: O equilíbrio entre eficiência, custo e compliance é cada vez mais crítico. Como é que este equilíbrio é gerido na prática? 

R: O objetivo de um profissional de Procurement não deve ser o menor preço, mas sim a melhor relação preço vs qualidade. Assim ficam integrados na equação a eficiência e o compliance, dado que a forma de aquisição do bem ou serviço, os prevê.

Acho que uma boa estratégia de Procurement e Compras, deve conter uma segmentação clara em quais categorias de aquisição a componente custo é a prioridade e em quais o risco se sobrepõe. Considero também que um standard de qualificação de fornecedores adequado a cada categoria de aquisição, é um dissuasor de riscos e perdas. 

P: O ESG em compras é visto por alguns como um acelerador e por outros como um bloqueio. Qual é a sua opinião? 

R: É preciso que ambas as áreas colaborem de forma honesta, no sentido de encontrarem um espaço comum e que funcione para a organização.

Se é verdade que o fundamentalismo não nos leva a um lugar bom, também é verdade que as métricas de ESG desafiam positivamente o Procurement a comprar com novas prioridades.

De nada serve burocratizar os processos ou reduzir a margem de negócio, por conta de preços de aquisição mais altos inerentes a fornecedores mais qualificados e menos expostos ao risco. Por outro lado, sermos cada vez mais conscientes de métricas ambientais e sociais na gestão de fornecedores é crucial para manter as cadeias de abastecimento mundiais resilientes.

Cada organização deve saber escolher qual o grau de exposição ao risco que deseja ter em função das margens de negócio que ambiciona, e trabalhar a partir daí.

Uma boa estratégia de Procurement e Compras deve conter uma segmentação clara das categorias de aquisição nas quais a componente custo é a prioridade e daquelas nas quais o risco se sobrepõe.

 

P: Que tipo de métricas ou KPIs considera essenciais para avaliar a maturidade de uma organização em Procurement? 

R: Quando uma área de Procurement tem como único KPI o saving anual, é um grande sinal de alerta. De todas as formas, ainda que seja redutor avaliar uma equipa apenas por um único KPI certo é que esse será sempre o mais importante. Da mesma maneira que as áreas comerciais servem para gerar volume de negócios, as áreas de compras servem para gerar savings nos custos de aquisição. Mesma função, 2 lados diferentes da barricada.

O segundo KPI que considero mais importante é o ROI. Uma boa área de Procurement será sempre um investimento e não um custo de suporte, dado que à semelhança das áreas comerciais, a sua atividade gera benefícios financeiros diretos que cobrem os custos da equipa em larga medida.
 
Sempre que tenhamos os meios, é importante evoluir os KPI para metas adicionais como: volume de consultas em curso e fechadas, SLA de serviço, prazos médios de pagamento, rácio contratos vs totais de compras, métricas várias de exposição ao risco de fornecedores, OTIF, entre outras.
 

P: Se tivesse de deixar uma mensagem a outras organizações que ainda estão a iniciar o seu caminho no âmbito da transformação digital nas compras, qual seria? 

R: Acho que numa era onde se fala muito das novas tecnologias, bem como de IA aplicado ao Procurement e Supply Chain é importante perceber que nenhuma nova tecnologia vai resolver todos os desafios. A grande maioria das vezes, os desafios são estruturais e organizacionais e podem ser resolvidos sem qualquer tipo de investimento, na medida em que se criam processos de gestão de dados mais eficientes, se reorganizam equipas e hierarquias funcionais e se desafiam os profissionais que fazem parte da estrutura a fornecer dados mais concretos, objetivos e segregados.  

Depois é preciso perceber se os ERP's já existentes podem ser expandidos ou potencializados, o que em si torna o investimento claramente menor e a integração mais fácil.

Por último acho que é importante e até necessário que exista uma maior responsabilidade quando se fala das maravilhas de uma aplicação ou da possibilidade de carregar num botão e aparecer tudo analisado com IA, porque é uma ilusão sexy e ganhadora na sociedade do "cá vamos andando como Deus quer", como é a nossa. Menos agradável é falar da dor de crescimento e da transformação necessária pela qual as organizações têm de passar, para criarem condições para utilizar as ditas plataformas. São processos morosos, difíceis, que mexem transversalmente com toda a estrutura da organização, consumem tempo e recursos e precisam de ser liderados com persistência e visão e patrocinados pelas Administrações.
 
Ainda assim, considero que a transformação digital é crucial e que as Administrações devem olhar no sentido do investimento e não do custo, dado que o objetivo é acrescentar valor. Isto significa que o valor dos processos sólidos e estruturados na base já tem de existir e as novas aplicações ou plataformas os vêm tornar mais eficientes e não criá-los de raiz.
 

 

 

Cláudia Branco é Procurement Director no Grupo Manuel Champalimaud, grupo empresarial português com atividade em áreas como energia e combustíveis, indústria, logística alimentar, turismo e exploração cinegética e silvícola.

Ao longo do seu percurso profissional, tem construído uma experiência sólida na área das Compras e do Procurement estratégico, destacando-se por uma abordagem que combina eficiência operacional, criação de valor e mitigação de risco.

Com uma carreira consolidada no setor, a Cláudia tem vindo a afirmar uma visão integrada e diferenciadora da função de Procurement, orientada para a inovação, a transformação dos processos e o impacto estratégico no negócio.